Um cidadão comum, avesso à política, olha de longe e vê  numa campanha, algo sobrenatural. É de imaginar a coragem de quem se atreve a candidatar-se, a se expor em fotos, santinhos, carros, caminhadas, discursos, programas eleitorais, abraços e sorrisos.

Ainda mais num momento, como este que vivemos no Brasil, onde ser político, de cara, já entra, se eleito for, para uma categoria dos suspeitos. O sujeito perde a metade da confiança que cultivou no outro dia. De uma maneira geral, é assim. E deixar a calmaria da vida comum, dos seus afazeres, obrigações, famílias para um embate público, é para um ser humano,  antes de tudo, um ato, de quem não se ama.

Quem sabe, isto tudo, não tenha  origem no próprio homem primitivo, no princípio da guerra,  este desejo, talvez, impercebido, de uma busca de poder.

Mas, que poder?

Onde está o poder?

O poder de influenciar a vida dos outros, de decidir destinos, de assumir compromissos, a oferecer o bem comum a todos? O poder de assinar montes de decretos, de balanços, de leis, nomeações, exonerações, facas no pescoço, cordas para enforcar e para quem gosta de risco, de bolsa de valores, é uma ótima oportunidade.

Deus!

É muito. É muita ousadia. Mas, deixemos de lado tudo isto, eu digo sempre, que todo cidadão, algum dia, poderia experimentar, os desafios de uma campanha política. Só para sentir de perto, os imensos confrontos, o gosto amargo, ora doce, ora salgado, que se encontra a cada esquina.

Os desejos, as esperanças, o que ganhará com a eleição de alguém, porque o cidadão precisa ganhar alguma coisa do seu candidato. Pode ser o dito cujo do “bem comum”. Mas, ninguém quer o bem comum, o eleitor espera o benefício particular, que pode ser a sua rua asfaltada, a água dentro de casa, o remédio que lhe falta, um emprego, estas coisas que se precisa.

A campanha é uma guerra deflagrada, apenas, não se usa revólver, míssil ou bomba atômica, mas, se detona, explode, revira e mexe com os intestinos uns dos outros. Ainda bem que tudo isto passa rapidamente. Admiro a campanha eleitoral americana, é uma prova de heroísmo, de resistência admirável, tanto tempo, tanta luta, para se ter na mão o direito de controlar o mundo.

O poder. A glória.

Eu confesso, que ainda não encontrei a Glória, a não ser as tantas Glórias que conheço, mas, a glória, gloriosa de assumir um cargo público eletivo, ainda, não tive o prazer de conhecê-la de corpo presente. Não deixa de ser honroso ser eleito. Eu sempre digo, passando por cima de todos os infortúnios de uma campanha, que ninguém ganha e ninguém perde uma disputa política, porque ela traz  também algumas vantagens pessoais, uma delas é se tornar conhecido, é o marketing pessoal que se coloca nas ruas, o reconhecimento do povo quando você aparece. Estas ilusões.

A campanha, por este lado, é um investimento publicitário em sua própria pessoa. Afora isto recomendo, que ninguém se sacrifique financeiramente pela campanha, nem perca o juízo com dívidas e agiotas, nem venda sua casa de morar, faça a sua campanha exatamente do seu tamanho, onde o braço alcança. E pregue a esperança, a simpatia e os naturais compromissos que devem ser feitos.

Os seus adversários, não são seus adversários, são amigos da mesma cidade, apenas, dois ou três que se oferecem majestosamente, para dirigirem os nossos destinos coletivos, a promover a nossa cidade, a pensar diferente e fazer as coisas com planos e metas.

Eu já disputei nove eleições e até hoje, não considero ninguém como inimigo. Quando termina a campanha, o que mais desejo é o sucesso de quem ganha e se puder ajudar ajudarei. Sou avesso a fuxico, fofocas, calúnia, ofensas de ordem pessoal. Mais um conselho, nunca ofenda a honra e a família do seu adversário.

Caso esteja num comício, inflamado discurso, não perca o controle das palavras. Porque as palavras são as balas, quando saem, não retornam mais. E se por acaso, o seu adversário, tiver lá embaixo, no meio do povo, o seu discurso não lhe iniba de cumprimentá-lo e até mesmo abraçá-lo.

É assim, que vejo uma campanha eleitoral. É dura. É espinhosa. É difícil. Mesmo assim, para quem gosta de sofrer e desejar o reino dos céus, é uma boa oportunidade.

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