A turma das madrugadas

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Eu saí, hoje, sábado (dia 15 de dezembro de 2018), bem cedinho, chovia fino, céu mormaçado, nuvens baixas, dizendo – “vem mais chuva daqui a pouco”. As ruas vazias. Pus o pé no asfalto molhado e pensei na minha turma. Quase de malucos. Há trinta anos, quatro da manhã, ponto marcado, perto da rodoviária, descíamos animados a Avenida Tancredo Neves (Ariquemes).

Naquele tempo, avenida  era curta, morria o asfalto pouco abaixo do Hotel Valerius. Cici, Afonso, Rei do Pano e eu. Me desculpe a família, mas, até hoje, não sei o nome verdadeiro do Rei do Pano. Era o nome da loja dele. Vendia tecidos. Todo dia tinha conversa nova. Todo dia muito riso. Todo dia, na madrugada, pessoas ouviam nossas conversas animadas. Estridentes.  A madrugada ampliava nossas sonoridades. Risos escandalosos.

E a gente descia a avenida, subia, descia de novo e subia. Quando batia seis horas, cada um tomava seu rumo. Hoje, fui sozinho. Não sei mais do Afonso. Não tenho notícia dele. Saudade, viu! Rei do Pano foi o primeiro a morrer. Este ano foi-se embora, o Cici. Será que ele foi para o Japão? Será que ele subiu no “pau do fuxico” seu alto falante no cume da castanheira? Somos aves, somos chuva, somos vento, somos nada. Somos lembranças. Pensamentos. 

Cici e Rei do Pano enobrecem os nossos céus visíveis.

Senti falta deles. E fui andando. A Avenida agora é longa.  Fui até o fim. Vendo os novos cruzamentos. Rotatórias bem desenhadas. Bairros novos nos pastos do Vicente. E ainda um lanço de pastagem alta de  colonião, onde foi a fazenda do Corbélia. O capinzal rodeia o prédio da Ciretran. Do outro lado o casario. Casas silenciosas. Famílias ainda dormindo. Não há chaminés fulijando o céu. Não se queima lenha.

A sementeira do capinzal bailando suave. Um pássaro mínimo cortava o silêncio com um pio agudo. Eu sentia falta da turma da madrugada. Ir e vir na avenida esticada de onze quilômetros. E comecei a correr, um trote, ritmado, um trote de quartel: – cici rei do pano afonso, um dois,  cici rei do pano, um dois três  e levando assim, na mente, carreguei o meu peso e a minha saudade.

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