É um rio ali embaixo. Com certeza é um rio. Ele aparece e some como um fio de cobre brilhante. Eleva-se o mastro. Solene, instável e com devoção. Fitas e bandeiras abençoam. Fogos espantam a calmaria. Aniceta veio do quilombo de Pedras Negras, para o festejo do Divino. A crença de mais de cem anos ainda vive.

Tudo se justifica pelo rito perene. A floresta densa esconde o rio, afluente, por longas distâncias. Até que se perde de uma vez. Agora me parece que ele subiu no meio das nuvens. Saí a pouco do delta dos rios Mamoré e Guaporé, estes rios são de pátrias diferentes. Os peixes se entendem bem. Os bolivianos do outro lado comungam a crença sem nenhum acordo diplomático.

Aqui é o oeste do Brasil. É trópico, úmido, verdes florestas e o verde cansa. Tem muita monotonia. O tiro da ronqueira assusta. Quando raro uma árvore com flores amarelas ou roxas. Por cima, sua lógica é do acaso, o universo é catastrófico porque ele tem muita irracionalidade. A Festa do Divino Pai Eterno tem um canto juvenil. Até que enfim o rio reaparece tortuoso no meio da floresta. Ele tem tantas curvas, como a romaria da festa, inexplicável serpenteia de vontade de formar ilhas e santidades.

Eu não sei dizer o que é felicidade. Aqui em Surpresa as pessoas são calmas e sorriem bastante. E tem uma timidez proposital. Hoje tem barco para Guajará-Mirim. Tem muita banana de fritar no barranco. 

O rio atravessou a serra, bem num baixio feito pra ele mesmo. Eu nunca tinha vista um rio fazer um túnel na serra. Agora, não sei se são dois rios que nascem no mesmo lugar. As nuvens avançam com véus sobre a imensidão verde. Há uma revolução geológica por aqui. A terra se agitou de vez, explicado por reações de minerais profundos. Tem muitos índios vivendo neste mundo de abandono, porque os índios amam a solidão. Eles também se entrosam com o rito do festejo e com os rios.

 

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