Luizinha morava na última casa da Rua de Baixo. Dois ou três dias da semana ela amanhecia com vontade de xingar. Só podia xingar para o lado de cima. O de baixo, era um grotão, se xingasse ali, só beneficiaria os sapos. A vizinha, da casa imediata, sofria com seus gritos às 6 horas da manhã. “Diabos de leve”, “Diabos te leve”, tudo isto, porque suas galinhas não entendiam de limites. Atravessavam a cerca de arame e iam botar ovos no quintal da outra. E os ovos ficavam por lá. Depois de xingar bastante, ela se acalmava, cantarolava e depois ia costurar.

Prometo que não falarei de política hoje. Nem de perto e nem de longe. Primeiro, porque nada terei a falar. Estamos todos no campo das imprevisões. E aí Pedrão, grande técnico de basquete do Dom Bosco (Porto Velho), o que houve com seu time sábado passado? Os meninos da Escola Marcelo Candia, da Zona Leste estão soltando foguete. E o Specht feliz da vida. 43 x 41, ainda bem, que que de vez em quando, é bom perder.

Estou por ver, um cara, que nasceu para a cordialidade. É o Belchor de Carvalho, ali, numa casinha de madeira, bem simples, ele convidava amigos para o churrasco. Ele mesmo inventava o cardápio, contava piadas, ia e vinha, espeto à mão, farofa, mandioca cozida e deixava todo mundo a vontade. Ele inventou a terapia comunitária. Quem quisesse se tratar de ansiedade e tristeza, era só ir à casa dele. A roda de conversa. O riso. Belchor era dentista prático, ainda com a broca movida a pedal. Tinha uma mão de ouro. Me caiu uma pataca do dente, nem sei o nome que se dá, bloco que cobre buracos de cárie, ele curetou os cacos restantes e fez misturas com colas antigas, gente! Até hoje carrego a cura das suas mãos abençoadas.

Ia descendo a Avenida Tancredo Neves, Ariquemes, faz tempo isto, às 4 horas da manhã, com meus companheiros de caminhada, os de sempre, Afonso, Cici e o Rei do Pano. Colado ao Hospital do Governo, havia uma lanchonete, que a noite virava boate. E a turma enchia a cara de pinga, caixa de som no alto e rolava o diabo ali. Casais agarrados nos beijos. Dançando na calçada. Os doentes de malária sem dormir, de jeito nenhum. Ô inferno! Todo mundo pedia alta no dia seguinte. Preferia morrer em casa ao tormento do lugar. Perguntei ao Cici : – como é que este povo aguenta, passar a noite assim, na farra? Cici me respondeu – você está é com inveja.

Todo mundo gosta de contar história, de tempo feliz, começo de vida, logo depois do casamento. Adorava baião e forró. Com o tempo forcei gostar de música clássica. Besteira! Melhor fechar os olhos e sentir. Sem nada entender. Como de resto, quase tudo é assim. Quase sempre, muito lascado, casinha simples, vida difícil, duas panelas, dois pratos, dois garfos, mas, a gente tem saudade. Por cima da dureza da vida, tem-se motivo para louvar o amor, muita paixão, e esquecia da escassez. Nelson Gonçalves bulia com meu coração. Fico buscando explicações para estas saudades, só vejo uma – a beleza e a força  estavam na juventude.

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