Queria que alguém cravasse em mim, o carimbo de garantia e me dissesse: – Rondônia é a Terra Prometida. Tinha medo da região. Era janeiro de 1976. E daí, tratei de conversar com várias pessoas, indicadas, que me falassem se teria futuro ou não morar por aqui. Pra falar a verdade,  nem precisava de conselhos. Porque ninguém poderia me garantir nada. Eu só queria que alguém me abonasse o que já estava decidido. A Vila de Ariquemes. E pegando palavras de alento.

Dr. Oliveira (Francisco Ferreira de Oliveira) velho dentista, conservador e popular. Sem fortuna, mas respeitado na cidade. Morava sozinho à rua Floriano Peixoto, bairro central de Porto Velho, uma travessa curta, entre a José de Alencar e a José Bonifácio. O seu mundo era estreito e curto. Ouvia o sino da catedral todos os dias e na mesma hora de sempre. Bem perto do movimento da loja do Miguel Arcanjo (material de construção). Sala da frente era o consultório.  Ele também tinha dúvidas sobre sua vida. Muita.

Formado em odontologia na década de 30. Foi amigo do primeiro Governador do Território Federal – o Aluízio Ferreira. O mesmo consultório de sempre. Com remendos. Brocas e pedais. Ele via a sua vida geometricamente, régua, triângulos e retângulos, as ferramentas do pedreiro. E que sua vida exotérica, nada mais que um retângulo dificultoso, de subidas e descidas, a Rua José Bonifácio era o seu teste de esforço máximo.

Ele pouco sabia do Estado. Quanto menos do futuro. Não se interessava por isto. Porque tinha seu mundo já ajustado. O que lhe era grande e suficiente. A boa conversa, a acolhida, no seu entender já era o bastante. Tão incerto o futuro! Para se ficar preocupando com ele. Porque tudo acontece como tem que acontecer.

Maçom devoto. Sala de espera, com  um banco e três cadeiras. Sem ventilador. Piso em ladrilhos encardidos. Mais tarde ele saia, andava a pé, dando o seu giro, cada encontro era um caso e uma história nova ou repetida. Sentado numa mesa do Café Santos, Avenida 7 de Setembro, logo se formava uma roda de conversa. Enquanto o vento assoprado do Rio Madeira, ventilava a avenida inteira.

Vivia num templo, as próprias ruas, as ladeiras, a simbologia em tudo, a história (José Bonifácio, José do Patrocínio, Pedro II) e tudo fazia imaginar que o Bairro Central de Porto Velho fosse um templo.  – A Verdade, União e Perseverança, encravadas na ladeira próxima. Adiante a catedral católica de secular oposição aos maçons.

Ao anoitecer, seguia com seu paletó preto no braço, a mesma gravata, também preta, a cada passo um pensamento, não de sonhos, mas, de encontros, passados e os de amanhã, girando entre as praças Marechal Rondon e a Jonatas Pedrosa. Muita Gente. Inúmeros abraços.

Não faria nenhuma guerra, nem lideraria nenhum revolução, só queria ser o que era e mais nada. E tudo que tinha já lhe bastava e se enriquecia com os amigos, símbolos. Preferia a vida singela e os mitos.

 

 

 

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