O quase professor

O quase professor

Eu tinha 6 anos de idade quando fizemos a primeira arribada. O destino era a cidade de Goiânia. No ano da graça de 1954, a mudança mal-arrumada num pau-de-arara. Eu me lembro, ainda na estrada, a notícia da morte de Getúlio Vargas. O caminho seria longo. Arenoso, pedregoso, infinito. Campinas ondulantes, longe a sombra da Serra Geral. Depois a Chapada dos Veadeiros. Meu mundo era pequeno demais diante das lonjuras das estradas. Tudo era Goiás.

Goiânia, enfim. Não tardou que meu pai se enturmou com gente do Pedro Ludovico (Governador por vários mandatos), ganhou um terreno no Setor Pedro Ludovico, onde construiu nossa casa. Era um bairro de pobre. A jardineira levava os moradores pela estrada de chão, via Praça Cívica e Avenida Goiás, até a Estação Ferroviária e depois voltava. Tinha um salão grande em casa. No sonho dele, seria um comércio.

Minha mãe, bordadeira (artesã) ganhava o dinheirinho picado e arrumava a casa. Meu pai sempre arrodeando os Ludovico, que parecia ter uma admiração fanática. Que entrava e saia do governo como numa rotina necessária. Um político que sabia exercer o poder à sua moda. A cidade foi construída por ele.

Meu pai era aquele profissional conhecido como “faz tudo”. Mais apegado a ser pedreiro. Chefe de almoxarifado. Gostava de ler códigos e enciclopédias. Era bom de prosa. Não tardou sendo nomeado professor. Por incrível que pareça. A forma, não sei.  Foi. Instalou bancos no salão da casa. Professor!! Ora pois!  Ele que malmente só fez dois anos de escola primária no Piauí. E o resto, saber ler jornal e escrever uma carta, aprendeu por conta.

Era um tempo que o menino aprendia por bem ou por mal. O castigo recomendado pelos pais. “Corrija o menino”. Em matéria de castigo, aí sim, meu pai era um doutor. Agora, saber ensinar a ler e escrever!! Terminou que minha tia Mourinha, vendo aquele festival de asneiras, resolveu tirar meu pai daquele ofício e assumir o seu lugar.

Eu mesmo, se ainda tenho orelhas foi por milagre de Deus.

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