Revivência

Revivência

Tenho gosto imenso por Porto Velho. Não o gosto paladar, mas, de amar a cidade, como algo de carne e osso. Coisa falante. De sete a nove de julho de vinte 21, fiquei por lá, em confidências políticas e reencontros. Para dizer mais de passado que futuro. Acordei nesses dias às 4h30. Queria seguir as trilhas antigas, revivendo cada pedaço e contando histórias.

A pandemia inverteu a lógica. Até a saudação é de punho fechado. Fui “simbora” pra rua. Peguei a Farquar e fui até o fim. Subi a ladeira do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Doeu a perna. O ar se rarefez. Subindo e descendo. No velho Palácio Getúlio Vargas beijei seus degraus. Amei a sua doçura. A pracinha das “Três Marias”, serenando o preto das suas chapas enquanto o sol dorme.

Fui fazendo labirintos, íngremes, como a verdade absoluta, a catedral católica, as lojas maçônicas históricas, a sede da prefeitura. Fui remando até o Mercado do 1. Comi uma tapioca à moda. Não é o mesmo. Resplandece o Colégio Murilo Braga, seus arcos, sua longa história.

Há necessidade de se formar novos líderes políticos. Não no laço, como acontece de praxe. Mas por conhecimento. Para enfrentar os dramas locais, os estaduais e os nacionais. Há um vazio de ideias. Há um descompasso entre a necessidade e a solução.

Passei no restaurante Sabor Libanês, cinco e trinta da manhã, ele estava lá, de porta aberta, fazendo há quarenta anos quibes e esfirras. Dezenas de vezes, ele e a esposa fazendo quibes e esfirras. Nada se altera naquele ambiente. As cadeiras, as mesmas mesas, os talheres. Passei na esquina de Abdon Atallah, que vendia tecidos. Dr Oliveira tinha por ali seu consultório odontológico, movido por manivelas, pedais, para curetar dentes dos ribeirinhos.

Não vi Miguel Arcanjo fazendo caminhadas no Espaço Alternativo e nem rodopiando no Parque Circuito. Eu senti o impacto da cidade no meu corpo. O Mercado do 1 (do um) não é mais o mesmo. Pedaços de forros caídos, pouco movimento. Efeito do coronavírus. A cidade ainda dorme, o silêncio fala tão alto que termino às margens do Rio Madeira.

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