Até hoje não sei o que passou pela cabeça do governador eleito Jerônimo Santana, em 1987, ao me convidar para assumir a Secretaria de Saúde. Fiquei surpreso. Talvez mais do que isso: assustado.
Eu era apenas um médico de Ariquemes, sem qualquer vivência na vida pública. Sabia o básico da medicina, um generalista. Nada além disso.
Não conhecia a Secretaria de Saúde. Não conhecia ninguém da área. Não sabia nada sobre o Hospital de Base. Absolutamente nada. Um ignorante completo naquele universo.
Um governador, em geral, procura gente experiente, capaz de liderar servidores, organizar serviços, entender de gestão pública. Eu não era nada disso.
Conhecia apenas dois ou três médicos “das antigas”. Disse a Jerônimo e ao vice, Orestes Muniz:
— Não posso aceitar. Mas posso indicar dois nomes bem conhecidos e respeitados: o Dr. José Augusto ou o Carlos Marquezine, de Vilhena.
Eles foram embora. Imaginei que escolheriam um dos indicados. Nada disso. Jerônimo insistiu por trinta dias.
Meu único “mérito” era ter sido seu puxa-saco quando ele era deputado federal: admirador, apoiador e colaborador da campanha.
No fim, aceitei.
Não sabia nada de licitação — palavrão para mim. Não tinha equipe técnica, não conhecia ninguém. Sentei-me à mesa e fiquei ali, recebendo pedidos, anotando, tentando entender.
Após sete dias, chamei a equipe da gestão anterior e disse:
— Ninguém será demitido.
E falei a verdade:
— Não sei nada de saúde pública. Preciso que vocês me ajudem. Que me orientem.
Ganhei guerreiros. Bravos.
Fui aprendendo. Juntos, implantamos o SUS. Ganhei confiança. Construímos muitos hospitais, Centros de Saúde Diferenciados (CSD), mini-hospitais nos distritos e vilas. Montamos equipes de saúde com médicos, levando atendimento onde não havia nada.
E assim foi.
A partir dessa experiência, praticamente deixei de ser médico e entrei, de vez, na política.