Este mês a guerra da Rússia contra a Ucrânia completa quatro anos.
Quando tudo começou, confesso: imaginei que duraria três, talvez quatro meses. Uma invasão daquela dimensão, em pleno século XXI, parecia coisa que a diplomacia internacional trataria de conter rapidamente. Mas o tempo passou. E já são quatro anos.
Lembro com nitidez de uma cena do primeiro ano do conflito. Após um bombardeio, casas reduzidas a escombros, poeira cobrindo tudo, silêncio pesado no ar. No meio da própria destruição, uma jovem entrou no que restou da sua casa. Caminhou entre os destroços, encontrou o piano ainda de pé, coberto de pó. Abriu o tampo. E ali mesmo, em pé, começou a tocar uma sinfonia de Schumann.
Foi uma cena inesquecível. O mundo assistiu e chorou.
A música terminou. A guerra, não.
Há algo profundamente constrangedor nisso tudo. Uma potência como a Rússia, com um dos exércitos mais poderosos do planeta, arsenal nuclear, força militar desproporcional — insistindo numa guerra longa, devastadora, que arrasta cidades inteiras para o chão.
Em pleno século XXI, ainda se faz guerra para demonstrar poder?
Para rugir ao mundo?
Para anexar territórios, ampliar fronteiras já imensas, impor domínio pelo medo?
É difícil aceitar.
E, do outro lado, a Ucrânia resiste. Resiste como pode. Seu presidente percorre o mundo em busca de apoio. O tempo avança. O povo se cansa. Sofre. Perde filhos, pais, casas, histórias.
Quando observo tudo isso, fico pensando como a história parece se repetir. O homem continua o mesmo. Mudam os séculos, mudam as tecnologias, mas a tentação do poder absoluto permanece.
Putin, muitas vezes, me lembra aqueles imperadores romanos descritos nos livros — conquistadores insaciáveis, movidos pela expansão sem limites. Como um Alexandre ressuscitado, marchando por terras que não lhe pertencem. Como um Napoleão reeditado, avançando pela Europa sob o argumento de grandeza e estratégia.
E nós, assistindo.
“Meu Deus, meu Deus, meu vasto mundo”, já dizia o poeta.
Quatro anos depois, a sinfonia ainda ecoa na memória. A guerra, infelizmente, também.
Que a humanidade encontre, enfim, maturidade para trocar o som das bombas pelo som do piano.
Em nome da paz. Amém.