Já conversei muitas vezes sobre isso com amigos e conterrâneos. Dianópolis era uma cidade pequena — menor ainda nos anos 1950 e 1960 — e, ainda assim, ali se organizou uma entidade destinada à proteção dos trabalhadores.
Às vezes paro e penso: como isso foi possível?
Era algo, no mínimo, improvável.
Imagino que a inspiração tenha vindo da política trabalhista de Getúlio Vargas. Naquela época, não existiam sindicatos por ali. Os trabalhadores eram autônomos, cada um por conta própria, vivendo do ofício aprendido na prática e transmitido de geração em geração.
Meu padrinho Henrique era latoeiro. Fazia lamparinas, cuscuzeiros, funis, panelas — transformava folha de flandres em objetos essenciais à vida cotidiana. Mestre Veríssimo era pedreiro, assim como Venceslino, Tico e Otavinho. José de Bento unia música e marcenaria. Raimundo Vogado vivia de pequenos bicos. João Correia, professor, também preparava remédios artesanais com sais diversos. Gente simples, trabalhadora, dona de saberes práticos e dignidade.
Ainda assim — ou talvez justamente por isso — construíram uma sede. Simples, cercada de arame farpado, mas cheia de significado. Todo ano, no dia 1º de maio, havia festa. Erguiam-se as bandeiras do Brasil e da UTD. Os associados vestiam paletó e gravata. Havia alegria, pertencimento, orgulho. Aquilo não era apenas uma comemoração: era afirmação de identidade.
A casa era pequena. A maior sala servia também de escola multisseriada, onde se aprendia a ler, escrever e, sem que ninguém percebesse, a cidadania.
Hoje, ao revisitar essas lembranças, fico me perguntando: quem terá orientado aquele povo tão simples a se organizar? Quem lhes ensinou que união gera força e que o trabalho merece respeito?
Eu morava perto quando menino. Via tudo sem compreender. Hoje, compreendo melhor — e me orgulho. Naquele tempo, aquilo me parecia apenas uma festa. Hoje, vejo com clareza: para a nossa realidade, foi algo extraordinário.
Mais do que isso: foi revolucionário.