Na cerimônia do jaleco das primeiras turmas de medicina da Faema, realizada em Ariquemes agora em abril, vivi um daqueles momentos que nos fazem olhar para trás e perceber que tudo valeu a pena.
Quando cheguei aqui, nos anos 1970, Ariquemes era apenas uma pequena vila. Não havia hospital, exames ou estrutura. A medicina que eu havia aprendido precisou ser reinventada, todos os dias, diante da necessidade real das pessoas.
Fui o primeiro médico a atuar em Ariquemes e no Vale do Jamari — não como um título, mas como uma grande responsabilidade.
Nunca esqueço um dos primeiros atendimentos. Um homem chegou com um ferimento grave no tórax, vítima de disparo. Mal conseguia respirar. Não havia hospital, ambulância ou para onde encaminhá-lo. Era ali, naquele momento, sua única chance.
Eu nunca tinha realizado sozinho uma cirurgia tão complexa. Tinha apenas um livro, coragem e o compromisso de tentar salvá-lo.
Minha esposa, Alice, também médica, ficou ao meu lado, lendo o procedimento em voz alta. E assim seguimos, passo a passo, entre o medo e a responsabilidade. Foram horas de tensão.
Ele sobreviveu.
Houve também um parto, em condições totalmente improvisadas. Sem maternidade, sem equipamentos — apenas a urgência da vida. Quando ouvi o choro da criança, tive a certeza de que, apesar de tudo, estávamos cumprindo nossa missão.
Naquele tempo, cada atendimento era um desafio. Cada vida salva, uma vitória.
Ali entendi que ser médico vai muito além da técnica. É decisão, responsabilidade e compromisso com a vida, mesmo quando tudo parece impossível.
Não havia tecnologia. Havia o médico, o paciente e a urgência.
Foi essa realidade que me levou à vida pública. Percebi que não bastava atender: era preciso estruturar a saúde, criar condições, mudar o sistema. Entrei na política com esse propósito — e sigo com a mesma convicção.
Hoje, ao ver esses jovens vestindo o jaleco, enxergo uma realidade diferente. Eles terão acesso à tecnologia, à informação, a recursos que não tínhamos.
Mas há algo que não muda: a essência da medicina.
Ser médico é, acima de tudo, um compromisso com o ser humano.
A medicina será cada vez mais tecnológica, mas não pode perder seu lado humano. Sempre haverá espaço para quem entende que cuidar de pessoas é mais que uma profissão — é uma missão.
Ariquemes cresceu. Rondônia cresceu. A medicina evoluiu.
Agora, uma nova geração segue esse caminho.