O gambá

O gambá

Quando saí de casa, como um retirante, foi num pau-de-arara, 1966. Destino era Goiânia. Era morador de Dianópolis, naquela época região mais pobre de Goiás. Comigo vinham mais 7 colegas que tinham terminado o curso ginasial (que corresponde hoje ao nono ano).

Estrada de chão arenoso. De vez em quando o caminhão atolava. Cerrado bonito. Bichos correndo nos ermos. Bandos de aves. Brejos escorrendo água fria. Buritizais enfileirados parecendo uma tropa de soldados. A certa altura, boca da noite, um bicho fogueou os olhos nos faróis do caminhão. Imaginei ser um tatu. Bati na lataria da cabine. Pulei no chão. Corri atrás do bicho e agarrei.

O danado me soltou uma golfado estranha, nunca tinha visto um troço tão fedido. Não era tatu, mas, um gambá. Tomei banho com sabão de barra na primeira aguada. É nada. O fedor continuou. Fui me banhando e cheguei a Goiânia insuportável. Imaginei: foi um aviso, não terei sorte nesta terra estranha, mijado por gambá.

Demorei a esquecer o episódio. Ainda hoje, basta alguém mencionar o nome do bichinho para que minha memória quase sinta novamente aquele cheiro que me perseguiu por tantos anos. Mas, no fim das contas, o mau agouro não se confirmou, a vida seguiu seu curso e, felizmente, Goiânia acabou sendo terra de caminhos abertos, não de azar.

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