Há búfalos selvagens em Rondônia. Pouca gente sabe disso. Eles chegaram ao Estado no início dos anos 1950, ainda no tempo do antigo Território Federal. Vieram em duas remessas, com intervalo de três anos entre uma e outra. Eram menos de cem animais, trazidos do Marajó por iniciativa dos governadores da época.
Naquele tempo, Rondônia praticamente não tinha gado. Faltava leite, faltava produção pecuária. Os búfalos foram desembarcados na Fazenda Pau D’Óleo, às margens do Rio Guaporé, área que hoje pertence ao município de São Francisco do Guaporé.
A região sempre impressionou pela força da natureza. Nunca vi tantos jacarés naqueles lagos. À noite, os olhos deles brilham como tochas de fogo. De vez em quando, um búfalo é atacado e estraçalhado por dezenas de bocas famintas.
Durante muitos anos, o governo cuidou da fazenda. Mas, aos poucos, os animais foram sendo deixados à própria sorte. Enquanto isso, continuavam se reproduzindo livremente. Quando fui governador, visitei a região.

É uma área alagada, cheia de pântanos, especialmente no período das chuvas. Os búfalos são extremamente fortes e bravos. Derrubam árvores ao se esfregarem nelas. Abrem valas enormes com os chifres, revolvendo a terra, e chegam até a mudar o curso de pequenos igarapés. Ninguém sabe ao certo quantos animais existem hoje por lá. Muitos já aprenderam até a atravessar o rio para o lado boliviano.
Os moradores da região fazem caçadas frequentes. Não há mais ninguém cuidando da antiga fazenda. Dias atrás, recebi uma ligação de Alta Floresta informando que o ICMBio estava na área realizando o abate dos animais, deixando as carcaças para os urubus, numa tentativa de reduzir os impactos ambientais provocados pelos búfalos. Não sei se o objetivo foi alcançado.
Quando governei Rondônia, procurei reorganizar a estrutura da fazenda. Montei uma equipe com trabalhadores treinados da própria região, criei cargos e planejei um manejo controlado da boiada. Hoje já são milhares de animais.
Com a pressão das caçadas e dos tiros, os búfalos estão cada vez mais arredios, entrando mata adentro. Não recebem vacinação e representam também um risco sanitário, tanto para aftosa quanto para outras doenças.
Apesar de tudo, é uma fazenda linda. E uma história fantástica da formação de Rondônia.