Ainda me vejo saindo do bairro Popular, em Goiânia – hoje parte do centro da cidade, todas as noites, caminhando até o Lyceu. Aquele prédio singular, fincado no coração da capital, parecia o ponto de onde as ruas se espalhavam ao redor.
Subia os degraus da entrada, atravessava um bloco até chegar ao pátio interno, aberto para o céu, onde a claraboia deixava aparecer as estrelas. Depois seguia para o bloco dos fundos, subia mais alguns degraus e me acomodava na sala de aula. O tempo parecia passar devagar.
Lembro do professor Agenor, barrigudo, ex-padre de Minas Gerais, ensinando Língua Portuguesa; de Henrique Peclat Neto, nas aulas de Química, conhecido pela experiência de produzir gasolina a partir da casca de banana; de Iracema Caiado, no Inglês; e de Moema Fleury Curado, na direção. Eram professores nobres, competentes e inesquecíveis.
Vivíamos os anos de chumbo da ditadura militar. Era preciso cuidado com as palavras. Eu, que sonhava ingressar na Escola de Sargentos da Polícia Militar, sabia bem disso. No ano seguinte, já estaria na corporação.
O Lyceu tinha imponência, tradição e um corpo docente extraordinário. Guardo dele uma saudade que nunca desapareceu. Foi ali que amadureci o sonho de cursar Medicina. Fiz vestibular sem cursinho. Passei um período no Colégio Universitário e, no ano seguinte, já era calouro da UFG.
Morava em uma república estudantil, na Rua 73, nº 9, perto do Mutirama. Fazia o percurso a pé todos os dias. Quase nenhum estudante tinha carro. Todos queríamos construir um futuro melhor. Eu queria ser médico. Vinha do sertão bruto do nordeste goiano, região que hoje pertence ao Estado do Tocantins.Recebi com grande alegria o convite para acompanhar o início da reforma do meu Lyceu, realizada no governo de Ronaldo Caiado e sob a liderança de Fátima Gavioli na Educação. Estou longe, em Rondônia, e gostaria de estar presente. Mesmo à distância, acompanho a entrega da ordem de serviço, imagino o discurso de Caiado, pausado, firme e marcado pelo seu goianês característic
Sinto-me aí com vocês. Entro, em pensamento, naquele velho prédio e me emociono. No reencontro, faltam palavras. Apenas ouço o tropel dos jovens cruzando seus corredores, iniciando uma vida repleta de possibilidades. O velho Liceu resiste, altivo e soberano, como um símbolo da educação goiana. Palmas para o passado e para o presente. Salve, salve!
Crônica escrita em 30.10.2023, durante a solenidade de reinauguração do Liceu de Goiânia.