Rondônia acaba de anunciar uma boa notícia: quase 18 mil cirurgias eletivas realizadas nos últimos três anos, com redução da fila de espera. Fico feliz com isso, de verdade. Mas tem uma pergunta que não sai da minha cabeça: quantas horas de estrada ou de rio essa pessoa precisou percorrer para chegar até a cirurgia? Porque, em Rondônia — e em boa parte do Brasil profundo —, a saúde não começa no hospital. Começa muito antes. Começa na distância.
Eu sei do que estou falando. Cheguei a Rondônia como médico, jovem, quando o estado ainda estava se formando. Fui o primeiro médico de uma cidade que mal tinha rua. Aprendi ali uma coisa que nenhuma faculdade ensina: existe gente que vive tão longe de tudo que o problema não é a doença. É chegar a tempo de tratá-la. Isso ainda é verdade hoje. Tem família que sai de madrugada, atravessa rio, pega estrada de terra para chegar a um posto de saúde — e, se o caso for grave, sai de novo, dessa vez para outra cidade, às vezes outro estado. Não é frescura. É geografia.
E note bem: eu não estou aqui para dizer que nada melhorou. Melhorou, sim. O SUS chega onde nenhum outro sistema chegaria num país deste tamanho. Isso é uma conquista que a gente não pode fingir que não existe. Mas dizer que existe fila menor não é a mesma coisa que dizer que a distância acabou. Porque tem duas formas de fila: uma é a que aparece na estatística — quantos dias você espera para ser atendido. A outra é invisível — quantas horas você gasta só para chegar ao lugar onde a fila começa. E essa segunda, ninguém mede.
Repare: quem mora perto de um grande centro reclama de esperar. Quem mora longe nem chega a reclamar — porque desistiu antes de tentar.
Saúde não pode ser sorteio de código postal. Se a saúde é dignidade — e eu acredito que é —, então a primeira pergunta de qualquer política pública não deveria ser “quantos leitos temos?”. Deveria ser: quem ainda não consegue chegar até eles?