nasci quando a segunda guerra mundial havia terminado
ainda havia fumaça no céu
onde nasci havia paz
e não se comentava sobre guerras
vida circunscrita de solidões
como não fôssemos do planeta terra
por ignorância e por outras razões
nada fora dos nossos trilhos interessava
como democracia, tirania, teocracia
porque tínhamos o céu estrelado
os caninos tortos, a dor de dente
bastava o jogo de futebol que nos enternecia
o catolicismo pragmático
o medo do inferno
a gratidão pelo perdão semanal
a hóstia consagrada
o sangue de Jesus
as ladainhas, as promessas por dias melhores
a vida de menino tinha solidão circunscrita e geográfica
de pensamento livre e infinito
não havia ambições, além da rotina
eu me assusto com o homem do século XXI
como me assusto com homem primitivo, da idade da pedra
com as mesmas razões torpes guerreavam
homem bipolar, quer e não quer, faz e não faz
Rússia e Ucrânia, Israel e Hamas, a vida inútil, bandos refugiados, oprimidos, humilhados
antropofagia, catalepsia, pandemia a nossa nova praga do Egito
me assusto com o homem
não aquele ignorante e pacífico relativamente fossilizado, que conheci
me assusto com o homem disruptivo, evoluído, instruído
mais racional dos bichos
o mais brutal dos bichos
o mais predatório dos animais
não quero mais ser humano
não quero ser mais racional
quero ser, o que era, quando menino
que ainda não conhecia o homem no reino dos animais selvagens
Poema escrito em outubro de 22 e adaptado em junho de 26.