Estudei em escola de freiras e padres. Tinha que rezar o terço todos os dias antes das aulas. Só de pensar besteira era pecado. Até pensar. Falar também era pecado. Palavrão ia direto pro inferno. Tinha os pecados veniais e os mortais. Caramba! Mortais. Até hoje não sei o que venha a ser venial. Vou olhar no Google. Não tenho mais dicionário do Aurélio.
No meio da semana a MADRE Estela passava na classe. – Vamos fazer a lista dos pecados da semana, para não esquecer nada. E a gente fazia a lista e escondia. No sábado a confissão. Acho que o padre ficava de saco cheio. Tanta besteira, sem emoção: respondi meu pai, minha avó, menti pra mãe, cheguei tarde em casa, matei passarinho, estas besteiras. Pecadão emocionante ninguém tinha.
Por exemplo, um beijo na boca, era um escândalo. Teria de rezar três terços de joelho e depois comungar. Ir para um escurinho com a namorada, quem tivesse essa raridade, e desse uns amassos, este tinha que fazer penitência um mês. Até jejuar.
Tinha um colega especialista em pegar a lista das meninas e divulgar pra turma. Ai meu Deus! Era um horror. As vítimas da estripulia se comparam hoje aos nudes da Internet. Choro e vergonha. A lista era disputada a peso de ouro. A gente nem pecava – tinha um medo terrível do inferno. Já imaginou a eternidade dentro de um caldeirão de merda?