Estou cansado de ler reportagens explicando como viver 100 anos em plena forma. É sempre o mesmo sermão, como se a humanidade inteira tivesse participado de uma reunião secreta e decidido repetir o roteiro.
A comida precisa ser colorida. Exercício físico todo dia — pelo menos 10 mil passos (ninguém sabe exatamente quando começou essa contagem, mas seguimos obedientes). Musculação é indispensável. Dormir oito horas ou mais. Ter amigos para fofocar bastante, porque conversar fiado virou item de saúde pública.
Depois vêm as vacinas — principalmente as de velho: pneumonia, herpes e, claro, COVID. Não fumar. Não beber álcool. Não comer doce. Gordura de porco, nem em sonho.
Sério: desse jeito, é melhor morrer logo — só para escapar da lista.
Mas calma, ainda tem mais.
E a saúde mental depois do celular e das redes sociais? O povo está ficando louco em velocidade 5G. Mesmo assim, dizem que para chegar aos 100 também é preciso ler 30 livros por ano. Ler, caminhar, malhar, dormir, meditar, socializar, vacinar, comer folhas… praticamente um segundo emprego. Não remunerado.
A virtude está no meio, dizem. Nem muito, nem pouco. Só que o “meio”, hoje em dia, parece um lugar cada vez mais apertado.
No fundo, o que vale mesmo é quase tudo isso aí. Só que ninguém conta que não existe fórmula mágica, nem atalho. O pacote vem completo: disciplina, renúncia e uma boa dose de culpa.
E não para por aí.
Tapetes antiderrapantes pela casa. Barras de apoio no banheiro. Tudo pensado para evitar quedas. Se eu continuar lendo essas recomendações, vou morrer antes de terminar o artigo.
Ah, esqueci: exames médicos todos os anos. E, para os homens, o clássico toque retal — porque viver muito também exige coragem.
A verdade é que viver 100 anos virou um projeto de engenharia. Uma planilha. Um manual de instruções. Só faltam mandar imprimir um QR code na testa.
Enquanto isso, ninguém fala muito sobre prazer, espontaneidade ou pequenas irresponsabilidades ocasionais. Ninguém explica como encaixar alegria entre a musculação e o chá de camomila.
No fim das contas, acho que viver bem é mais simples — e mais complicado — do que vendem por aí. É cuidar do corpo, tentar preservar a cabeça, rir sempre que possível, exagerar às vezes sem tanto remorso e, principalmente, não transformar a própria vida numa penitência preventiva.
Porque, convenhamos: viver 100 anos sem graça nenhuma não parece grande negócio.