Médico de interior profundo

Médico de interior profundo

Quando cheguei a Rondônia, nos idos dos anos 70, só existiam dois municípios, Porto Velho e Guajará-Mirim.

Acreditei em uma promessa de governo. Veja só: uma promessa de governo, algo em que hoje pouca gente acredita. Diziam que o Estado cresceria, que surgiriam novas cidades, que chegariam pessoas de todas as partes do país, que a BR-364 seria asfaltada, que o dinheiro circularia e que o progresso viria. Acreditei. Escolhi a Vila de Ariquemes, então conhecida como “Papagaio”, local onde o Marechal Rondon fez pouso e esticou os fios telegráficos.

Num galpão de madeira bruta, sem forro, fiz divisórias, móveis de madeira bruta, botei placa de “hospital e maternidade São Francisco”. Fiquei ali, esperando a cidade chegar. Fiz um quarto ao lado. Ali eu dormia.

Certo dia, Valentim veio do Seringal 70, perto do Jaru, para uma consulta. Chegou à noite, dormiu num banco à espera da condução que sairia de  madrugada. Quatro horas da manhã ele bateu à porta do quarto onde eu dormia:

— Dr. Confúcio, Dr. Confúcio! É o Valentim. Já vou embora. Esqueci de pagar a consulta.

Respondi, ainda de dentro do quarto:

— Pode deixar o dinheiro debaixo da porta.

E ele se foi.

Foto gerada por IA

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