Dizem que o apaixonado vira um delirante. Acho que é verdade.
Eu já estava em namoro firme com Alice. Começo dos anos 70. A gente fazia tudo a pé, como era comum na época. Naquele sábado, combinamos cinema. Passei na casa dela, no Setor Aeroporto, em Goiânia. De mãos dadas, cheios de carinho e chamegos, seguimos pela Avenida Anhanguera rumo ao Cine Capri.
A noite estava daquele jeito: iluminação fraca, árvores projetando sombras no calçadão do clube ali perto, a lua tímida, escondida atrás das nuvens, estrelas distantes piscando sem muita vontade. Conversa vai, riso vem, quando — de repente — nós dois demos uma peitada numa cerca de arame farpado que isolava a reforma de um prédio.
Nem vimos.
Resultado: roupa rasgada, peito arranhado, mãos marcadas. Um susto rápido, seguido de gargalhadas sem fim.
O filme ficou para outra ocasião. Voltamos pra casa rindo da nossa própria distração.
É isso: gente apaixonada não enxerga nem cerca de arame.