O TEMPO QUE NÃO ESPERA

O TEMPO QUE NÃO ESPERA

Você já ligou pra resolver uma coisa urgente e ouviu: “Aguarde, seu protocolo está em análise”? Pois é. Você não está sozinho. Ainda hoje, mais de 1,6 milhão de pedidos de aposentadoria, pensão ou auxílio esperam resposta do INSS. Quase 500 mil já passaram do prazo legal de 45 dias. Não é número pequeno. E atrás de cada um desses números tem alguém que não pode esperar, porque a conta de luz não espera, o aluguel não espera e a doença, com certeza, não espera.

Esse é um dos maiores desencontros do Brasil: o tempo da vida e o tempo do Estado nem sempre correm na mesma velocidade. A vida muda de uma hora para outra — o desemprego chega sem avisar, a doença bate na porta sem hora marcada, as contas vencem independentemente de qualquer justificativa. Já o Estado funciona diferente: precisa de processo, de regra, de fluxo. Isso, sozinho, não é defeito — é o que garante que ninguém seja atendido por capricho e que direitos sejam respeitados. O problema é quando essa engrenagem necessária vira distância, e o cidadão sente que, entre ele e a resposta de que precisa, existe um abismo que ninguém sabe explicar.

Reparou como a gente só percebe o Estado quando precisa dele? Ninguém pensa no INSS até o dia em que precisa de um benefício. Ninguém pensa na fila até estar nela. E é justamente aí, no momento de maior necessidade, que a demora dói mais. Não adianta o Brasil ter avançado — e avançou, é bom reconhecer — se quem está esperando não sente esse avanço na própria vida. Estatística de redução de fila não paga conta. Só o benefício na conta bancária paga.

Modernizar o Estado não é só digitalizar formulário. É reduzir a distância entre o pedido e a resposta. É fazer o serviço público chegar no tempo em que a vida precisa dele.

Porque um Estado que chega tarde demais não é só ineficiente. Para quem esperou, é uma forma de ausência.

E talvez a pergunta certa não seja “quanto o Brasil cresceu?”, mas esta: quanto tempo uma família pode esperar antes de perder a confiança de que alguém, do outro lado, está cuidando dela?

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