Amazônia de terras devolutas

Amazônia de terras devolutas

Quando falo de terras devolutas, não me refiro apenas à Amazônia. Elas existem em todo o Brasil. São áreas ermas, sem destinação definida, muitas delas remanescentes do antigo regime de sesmarias. O termo vem de longe, mas, em resumo, trata-se de terras que pertencem à União — e, portanto, a cada um de nós. Como células de um grande organismo vivo, cada pedaço é patrimônio do povo brasileiro.

Essas terras esperam uma destinação que só pode ser definida por lei ou regra específica. E, sinceramente, muitas delas eu acho melhor que nunca tenham destino algum. Quem ocupa essas áreas sem a legitimidade do ato público não é dono, nem se torna proprietário legítimo — hoje ou amanhã. E ainda bem que é assim. As terras devolutas são patrimônio de todos, permanecem imaculadas, virgens, verdes, enfeitando o território com sua presença silenciosa.

Por isso, não vejo motivo para pressa em destiná-las. Enquanto permanecem intocadas, cumprem funções que vão muito além do aspecto monetário. São guardiãs de mananciais, sustentam redes hídricas, abrigam raízes inteligentes que se comunicam em segredo. Ali, a natureza fala a sua própria língua, com códigos que nós, humanos, muitas vezes não percebemos. A terra devoluta fala, sorri e canta.

Há poesia nesse silêncio. Há sinfonias escondidas sob o verde aparentemente monótono. Micro-organismos, bilhões deles, trabalham em conjunto, promovendo transformações químicas que sustentam a vida. Cada árvore que cresce nessas áreas pertence simbolicamente a um brasileiro. Ao longo das gerações, esse patrimônio foi passado de mão em mão, como um bastão de responsabilidade. O homem passa; a terra fica. E cumpre o papel que lhe cabe: ser natureza viva, floresta, hileia, território guardado por mitos e por limites que apenas ela conhece.

Acredito que as terras devolutas têm alma. Têm espiritualidade. São divindades naturais. E quem as fere — seja com o machado, seja com a astúcia travestida de “cheguei primeiro, então é meu” — acaba infringindo não só a lei, mas um código moral mais profundo. A floresta não esquece. E, para esse tipo de violência, a condenação é eterna.

 

 

Deixar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.