A exaltação do pobrismo amazônico

A exaltação do pobrismo amazônico

Há muitos anos cheguei ao Distrito de Surpresa. Surpresa é o nome exato e feliz para o lugar. No delta dos rios Guaporé e Mamoré. Misturam-se a língua das águas, o espanhol ao português. Há lagos naturais, castanhais, buritizais, seringais, banana da terra, peixe em abundância. Convivem as comunidades em harmonia – ribeirinhos, indígenas e quilombolas.

Fui recomendado pelo Walter Bártolo, que amava o lugar e tinha uma casa vazia e um caseiro, sem salário, que andava de calção dia e noite e que vivia do extrativismo primitivo. Ele me disse que não via dinheiro há mais de seis meses. Que já tinha corrido o mundo, morado em Ariquemes e que me conhecia.

Não posso condenar quem ama a solidão. Nem aquele que despreza a riqueza material. Assim como ele, grande parte do caboclo amazonense vive do cultivo da mandioca, da banana comprida, da caça e pesca, além açaí, castanha e outros produtos. E assim, vão seguindo suas vidas simples, aproveitando as safras da castanha, extração do látex (quase abandonada), copaíba, mel, açaí. A vida de cargas pesadas, balaios cheios, esforço desgastante.

Essa é a bioeconomia real, que é decantada em prosa e verso. Então, o que falta para o caboclo amazonense viver melhor? Eu sei que eles querem viver melhor. Quando chega a energia – é festa. Quando chega água potável – é festa. Quando chega médico – é festa. Quando chega escola – mais festa. Querem sementes de qualidade. Querem máquinas para farinha, para desbrocar o solo, querem trator para puxar a galhada.

Querem mais renda para comprar as coisas da casa. Eles têm a liberdade, amam a natureza e experimentam a brutal desigualdade, enquanto vivem na abundância.

A bioeconomia rendosa precisa de pesquisa, de crédito, de assistência técnica e de apoio. O caboclo é um brasileiro invisível. Inspirado na sabedoria ancestral dentro de um mundo competitivo e urbano. E assim se perpetua o ciclo do pobrismo extrativista que não se combina com o meio ambiente sustentável e justo.

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