Quero em mim Fernando Pessoa.
Quero em mim Clarice para escrever sobre o ovo e a galinha.
Quero em mim Lima Barreto com sua insurreição.
Quero em mim a rima bem feita.
A simplicidade de Manoel de Castro. Quero mais que todos, quero dar um recado ao mundo.
O meu recado sem ideologia, bem real – sobre o clima, vida e o planeta terra.
Sobre o homem e sua mão podre que nos aquece e sufoca.
Sobe a temperatura, agita a vida, as águas do oceano.
Secas aqui e acolá.
Chuvas demais aqui e acolá.
Ventos demais aqui e acolá também. Incêndios florestais e nas cidades. Desmoronam morros. Enchentes e inundações.
Há territórios que serão inundados e desaparecerão.
A vida na Terra está em perigo.
Tem gente que discorda.
Acha que é catastrofismo.
Que é exagero.
Que é fantasia.
Que o planeta se acomoda.
Enquanto jogam lixo na rua, fumaça das chaminés, a queima de carvão, diesel, gasolina.
A indústria da destruição e da riqueza. Riqueza aparente.
Porque a destruição é certa e a reconstrução cara.
Viva o Rio Grande do Sul, o pampa, Yamandu, Borghetinho, viva Elis Regina, Érico Veríssimo.
Viva a liberdade o brado gesticulado, eufórico de Pedro Simon.
Viva o cavalo Caramelo.
Viva o desabrigado, sem casa, sem documento.
Viva noutro lugar a cidade dizimada. Que Porto Alegre seja alegre.
Que Canoas não precise deslizar em águas e rebojos.
Queria uma poesia sobre clima, águas e nascentes.
Queria os animais contentes e plácidos. Queria Caramelo pastejando no anonimato.
Não queria ver a mulher enganchado num galho seco por três dias.
Sem nenhuma lágrima escorrendo, a família desceu na enxurrada, ela e Caramelo resistindo com solenidade e força, como mitologias do fim do mundo.
O gesto, o ato humano, o lucro, cobiça e usura é a causa.
O desastre não tem ideologia.
O desastre ambiental é um aviso que vai piorar.
O desastre da natureza matará a vida e depois não encontraremos nem os culpados.
Caramelo, o belo, irracional que resistiu e galopou por todo mundo, ele gritou, falou ao homem sem nada dizer – “assim não dá” e urrou